Ser fotógrafo

Perfil

Nattan Carvalho

A fotografia me descreve. Não me enxergo hoje sem ser fotógrafo. Quando iniciei minha carreira, dei essa permissão à vida. Deixei que ela me seduzisse: dormia fotografia, respirava fotografia, consumia fotografia em todas as minhas horas. E, então, ela me completou e passou a ser intrínseca. Encontrei na arte e na profissão algo que pudesse preencher o tempo, todas as minhas lembranças e olhar para o futuro de forma muito maior e mais clara. A prática me moldou.

Na minha vida, as decisões mais significativas e importantes foram acontecendo através de sinais. Abri um estúdio em Rio Grande, minha cidade natal, e não deu certo. Então, fui fazer um curso em Porto Alegre e encontrei a oportunidade para a minha primeira grande mudança, que me colocaria em um rumo completamente novo e inimaginável. Acredito que esses dois momentos ocorreram por um motivo e busquei seguir os caminhos que foram aparecendo e que sentia que deveria me jogar.

A fotografia de pessoas também me fisgou dessa maneira irracional: não foi uma escolha consciente, mas hoje é algo que sou completamente viciado. Uma vez um jornalista me rotulou como o “autor das noivas”. Eu diria que gosto de registrar mesmo são os relacionamentos humanos. A fotografia de casamentos foi a forma mais próxima que encontrei de captar sentimentos em retratos.

Com apenas 21 anos abri meu segundo estúdio. O meu lado empreendedor passa por não ter medo de fazer as coisas, de se não der certo, achar um jeito diferente. Quando me mudei não estava me importando com ganhar dinheiro – meu propósito sempre foi me tornar um grande fotógrafo. Ter o meu próprio negócio passa por essa questão da liberdade que preciso.

Isso se reflete também nas exposições que já realizei. Busco sempre tocar projetos onde possa exercer a criatividade e surpreender o público. Desde 2006, lanço catálogos de noivas para que o público possa levar para casa inspirações desses momentos únicos de amor. Acredito nas publicações impressas como uma retomada à fotografia tradicional, e tenho os álbuns como grandes protagonistas do meu trabalho.

Fotografia é isso: construir, experimentar e permitir. E eu me permito todos os dias.

Fazer fotografia

Uma visão

Artística

Fotografia de autor é ser literal. Quer dizer que o meu ponto de vista está exposto naquele clique e pauto meu trabalho por esse início, o de sempre colocar o meu olhar em cada detalhe. Para isso, claro, tenho referências grandiosas. Poderia até brincar que sou um fotógrafo jovem com a alma velha. Da mesma forma que adoro o momento atual, de redes sociais, efemeridade e muita informação, me identifico com a fotografia dos grandes mestres, em que cada imagem é única e o tempo é sentido de outra forma. São retratos de uma sociedade com percepções de leitura de luz e de imagem muito limpos.

Helmut Newton, Robert Doisneau, Patrik Andersson, o próprio brasileiro Marcio Scavone, são profissionais que me espelho para nunca perder a essência da fotografia. Porque quando fotografo pessoas existe uma troca: o que vai, volta, e sem sombra de dúvidas a qualidade da imagem passa por essa relação subjetiva. Gosto, por exemplo, quando o retratado me encara ou quando me ignora por completo, não olhando para a lente e me deixando de fora da fotografia. Nessas horas, questiono: é a mim ou a lente que ele olha? O quanto essa troca consegue ser profunda, madura e intensa reflete no resultado final, e por isso busco estar sempre o mais aberto possível aos sentimentos.

Este site foi construído ao som de Fly me to the moon, do Frank Sinatra, e assim como fazer música, onde se escolhe cada acorde e entonação, a fotografia também é um misto de escolhas técnicas e estéticas. Sensíveis e sutis. Eu acrescentaria, inclusive, um ponto à famosa frase do Cartier-Bresson: “fotografar é colocar na mesma linha cabeça, olho e coração”. Fotografar é, sim, ter um balanço das três questões, mas não podemos ignorar o lado mecânico, inconsciente de fazer escolhas e racionalizar em poucos segundos a luz, a forma, o movimento e os sentimentos.

Os grandes fotógrafos que pisaram nesta Terra (ou que ainda pisam) conseguiram ser mais sensíveis do que técnicos, mais humanos do que mecânicos, conseguiram traduzir. E é essa busca incessante que me desafia a cada novo ensaio, evento, local que visito ou ideia que me inspira. Meu trabalho abre diariamente novas maneiras de enxergar o mundo e a mim mesmo.